8M – Dia das Mulheres e a Pandemia de Covid-19

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8M – Dia das Mulheres e a Pandemia de Covid-19

Sindicato Nacional dos Servidores do Ipea (Afipea-Sindical) divulgou hoje uma Nota Pública intitulada “8M – Dia das Mulheres e a Pandemia de Covid-19”.

O texto lembra que “A pior inserção da mulher no mercado de trabalho é um problema estrutural e não foi iniciado na pandemia. Seja em termos de participação, desemprego, informalidade, ou salários, os indicadores femininos estão sempre piores que os masculinos. No entanto, a pandemia deixou essa desigualdade ainda mais evidente e tem contribuído para aprofundá-la. O isolamento social, necessário à redução da transmissão do vírus, afetou setores relacionados a serviços e postos de trabalho que não permitem o teletrabalho“.

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O tema estará em debate em um seminário online “A Desigualdade está entre nós” que a Afipea-Sindical irá realizar no dia 9 de março, a partir das 16 horas. Clique para saber mais. 

Abaixo, o texto completo da Nota Pública:

8M – Dia das Mulheres e a Pandemia de Covid-19

Chegamos ao dia 8 de março de 2021 vivenciando o pior momento da pandemia de COVID-19 no Brasil. Após aproximadamente um ano de pandemia, a atual média diária de mortos vem superando o pico nos meses iniciais da pandemia e oscila acima de mil, com o Ministério da Saúde prevendo média diária de 3 mil mortos ao longo do mês de março. Ao todo, já foram perdidas mais de 260 mil vidas por COVID-19. Neste cenário trágico, é importante discutir as consequências da pandemia sobre a desigualdade de gênero em alguns de seus múltiplos aspectos.

A pior inserção da mulher no mercado de trabalho é um problema estrutural e não foi iniciado na pandemia. Seja em termos de participação, desemprego, informalidade, ou salários, os indicadores femininos estão sempre piores que os masculinos. No entanto, a pandemia deixou essa desigualdade ainda mais evidente e tem contribuído para aprofundá-la. O isolamento social, necessário à redução da transmissão do vírus, afetou setores relacionados a serviços e postos de trabalho que não permitem o teletrabalho. São atividades onde as mulheres estão sobre-representadas tais como hotelaria e serviços domésticos.

Merece destaque o fato de a taxa de participação das mulheres ter ficado abaixo de 50% pela primeira vez em décadas. Se for considerada a proporção de mulheres ocupadas sobre o total de mulheres, o percentual alcançou um número abaixo de 40%. Ou seja, a chegada da pandemia significou que menos de 40% das mulheres conseguiam se manter em suas ocupações e receber rendimentos oriundos do trabalho. Esse é um dado relevante tendo em vista que os rendimentos das mulheres são fundamentais não só para sua autonomia mas também para o bem-estar de seus domicílios, que muitas vezes são chefiados somente por elas.

Além disso, as mulheres também perderam mais postos de trabalho que os homens na pandemia, A taxa de desemprego feminina chegou a 17%, em novembro de 2020, frente a uma taxa de 12% dos homens. O fato é que os setores mais afetados pela pandemia são não apenas aqueles em que as mulheres estão sobrerrepresentadas, como são aqueles que estão demorando mais para se recuperarem depois do pico da primeira onda de covid em meados de 2019. Apenas no setor de trabalho doméstico, 1/3 das trabalhadoras perdeu sua ocupação, o que representa cerca de 2 milhões de mulheres desempregadas em um momento tão delicado como o que estamos vivendo.

Também a divisão desigual dos afazeres domésticos entre homens e mulheres é uma questão anterior à pandemia. O cenário anterior a 2020 indicava que enquanto os homens dedicavam cerca de 11 horas semanais aos afazeres domésticos, as mulheres trabalhavam cerca de 21 horas semanais em tais tarefas, praticamente o dobro do tempo gasto pelos homens. Estudos desenvolvidos pela ONU Mulheres mostram que esta situação se agravou ainda mais na pandemia, com a implementação do teletrabalho, a impossibilidade de redução das jornadas de trabalho remunerado uma vez que muitas mulheres estão alocadas em atividades consideradas essenciais e, especialmente, em função da suspensão das aulas presenciais em creches e escolas e dos serviços de atendimento a idosos e/ou pessoas com algum tipo de dependência, pois ambos implicam uma maior quantidade de afazeres domésticos. O isolamento social dificultou ainda a manutenção dos arranjos que contribuem para a realização do trabalho reprodutivo tais como a contratação de empregadas domésticas ou o auxílio de avós, vizinhos, etc. Ou, quando não foi possível deixar de contar com esses arranjos – especialmente entre a população de mais baixa renda – os expôs ao contágio, o que é especialmente grave no caso de pessoas de maior idade que se constituem em grupo de risco da pandemia. Essa intensificação dos afazeres domésticos não só impossibilita as mulheres de assumir ocupações que tenham que ser realizadas presencialmente como também dificulta a rotina daquelas que conseguem realizar teletrabalho e daquelas que precisam seguir trabalhando presencialmente, seja nos hospitais, seja em outros serviços classificados como essenciais.

A pandemia também deixa em destaque a questão dos idosos que são as principais vítimas letais. Apesar de os homens predominarem entre as vítimas, cerca de 86000 idosas faleceram neste primeiro ano de pandemia. Houve uma redução de 1,8 ano na expectativa de vida da população feminina e de 1,5 na das mulheres de 60 anos ou mais. A morte dessa mulheres resulta em órfãos e também contribuir para o aumento da pobreza, pois a renda das idosas era fundamental para diversas famílias. A pandemia também realça a importância do cuidado com idosos. Estimou-se que em 2020, 5,1 milhões de idosos demandavam cuidados, dos quais cerca de 61% eram mulheres. O Estado brasileiro tem deixado essa responsabilidade totalmente entregue às famílias, na maioria das vezes sem condição, e/ou ao mercado privado. As mulheres apesar de serem as maiores demandantes de cuidados são as principais cuidadoras, inclusive as mulheres idosas. Entre as pessoas que cuidam dentro ou fora do domicílio, não apenas de idosos, cerca de 63% eram mulheres, 32,9% tinham mais de 60 anos e 22,5% mais de 65 (PNAD-C/ 2019). A pandemia aumentou os desafios dessas cuidadoras devido ao isolamento, à precariedade de condições de trabalho, a falta de equipamentos adequados de proteção e o risco ao se deslocar pelas cidades.

Outra questão de suma relevância é a violência doméstica. A intensa convivência no ambiente doméstico e a sobrecarga de afazeres acabam por acirrar as tensões e animosidades, o que pode contribuir para o aumento de casos de agressões familiares e feminicídios. Além disso, o afastamento das redes de apoio composta por amigos, familiares, escola, dificulta a realização de denúncia e interrupção das agressões. No primeiro semestre de 2020, 648 mulheres foram vítimas de feminicídio, aumento de 1,9% em relação ao ano de 2019 (Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2020).

Há ainda diversos outros aspectos da pandemia associados às desigualdades de gênero. Por exemplo, é importante ressaltar que a maioria dos trabalhadores na linha de frente de combate à pandemia é composta por mulheres; 72,5% dos profissionais de saúde são mulheres, estando altamente expostas ao contágio. E muitas mulheres estão conduzindo pesquisas científicas relevantes para a COVID-19 apesar da sobrecarga do trabalho reprodutivo. No entanto, é importante finalizar concluindo que a vacinação em massa será relevante não apenas para o fim da crise sanitária, mas também para reduzir os danos causados à condição da mulher pela pandemia. Também o auxílio emergencial foi importante para o alívio da pobreza em diversos lares, e especialmente naqueles que contam somente com a chefia feminina. Assim, a vacinação em massa e a continuidade do auxílio emergencial juntam-se às políticas de gênero, necessárias ao combate das desigualdades estruturais, para compor a agenda de luta neste 8 de março.

AFIPEA-SINDICAL

Brasília-DF, 08 de março de 2021